É muito interessante como algumas (muitas) pessoas entendem o trabalho da Psicologia. Outro dia, minha amiga Lorena perguntou: “Tudo bem com você? Está acontecendo alguma coisa? Você parece tão cansada!”
Sim, eu estava extremamente cansada. Por quê? Porque todo mundo tem problemas e cada vez mais as pessoas parecem mais perdidas e carentes. Antes quando você encontrava uma pessoa e falava “oi, tudo bem?”, a pessoa respondia que estava tudo bem e seguia em frente. Era só um cumprimento.
Hoje as pessoas param e respondem, contam os problemas e esperam uma solução. Alguns cultivam a ilusão de que temos todas as respostas, e esperam que os livremos de suas dores e problemas em uma conversa. Já outros dizem que querem “apenas conversar um pouco”, “ouvir sua opinião”, como se realmente fosse apenas uma opinião, quando na verdade temos longos anos de estudo, principalmente após a faculdade.
Além dos estudos, da formação básica, da supervisão por longos anos com nossos mestres, das especializações e do aperfeiçoamento constante, ainda nos submetemos a vários processos terapêuticos durante nossa vida. Esta é uma condição necessária em nossa profissão. A primeira orientação que recebemos quando iniciamos a faculdade de Psicologia.
Psicólogos não são apenas “escutadores” de histórias e “opinadores” na vida alheia. Isto qualquer um faz. Nós, ao contrário, portamos os fundamentos de uma ciência, que embora exista desde que o início da civilização quando um humano tentou entender outro humano, só se constituiu enquanto ciência, corpo teórico e instrumentos de trabalho, há pouco mais de um século.
Psicólogos são (re)contadores de histórias; (re)escritores de histórias de vida; (re)programadores de estratégias para novas histórias; aceleradores de mudanças; co-criadores junto com os clientes de novos scripts e novos templates de vida. Psicólogos são co-autores de inúmeras histórias de vida, atuando através das palavras em todas as áreas e dimensões da vida humana. É pouco? Não, isto é muito.
E como dizia Lacan, pagamos com a própria vida. Outros profissionais têm instrumentos mediadores em seu trabalho. O instrumento do psicólogo é a própria pessoa que ele é, o que ele traz de vida vivida, suas experiências e seu absurdo conhecimento da subjetividade humana. Digo absurdo porque para além da teoria, e do conhecimento amplo, cada ser humano ali, na sua frente, traz o geral e universal de que tratam as teorias, mas trazem também a sua subjetividade. Cada ser humano é único em suas particularidades, e temos de ver e compreender cada um como um universo único, com sua história, suas crenças, sua forma de sentir, agir, reagir, pensar, viver, enfim, encontrar a verdade de cada um e refleti-la de volta para que cada ser se torne consciente do que realmente é.
Mais do que um ser explicado por uma teoria, ou várias, quando está na nossa frente, nosso cliente se torna único. E assim, com cada um é um processo inteiramente novo, único. Acolhemos e ouvimos cada um em sua condição particular e singular. Nos entregamos ao trabalho de ouvir o dito e também aquilo que não é dito, mas escapa do inconsciente. Pescamos nas palavras os significados da vida de cada um, inclusive os significados ocultos. Em cada pista mínima buscamos compreender o sentido de uma vida que muitas vezes passa despercebido, pelo próprio sujeito. Esse mesmo que muitas vezes sente que sua vida é desapercebida de sentido.
E qual o sentido da vida do psicólogo? É o sentido da doação de si, da doação da pessoa que se é. É o sentido do compartilhamento da sua vida pois é na vida de outros que ele investe a sua própria vida, na práxis cotidiana de desvendar mundos insconscientes e desvelar sentidos ocultos, que principalmente por serem ocultos causam mal estar.
Venha comigo! Quando as pessoas começam a falar de suas dores e sofrimentos isto afeta você, afeta seus sentimentos, certo? Imagine então alguém que passa o dia todo a ouvir os problemas dos outros? Enquanto ouve a história que está sendo contada, seus sentimentos estão presentes, pois se não houvesse a capacidade de sentir, como ele seria capaz de compreender a outra pessoa?
Enquanto ouve atentamente, ele precisa manter sua atenção flutuante para ouvir o inconsciente e captar os sentidos do não-dito, que exatamente por não ter sido dito, tornou-se mal-dito. O mal-dito causa dores e sofrimentos, daí a cura depender de que tudo seja dito e compreendido. Compreender outro ser humano é uma bênção e um júbilo, porque como disse Eça de Queiroz, “o maior espetáculo para o homem será sempre o próprio homem”.
Mas continuemos interrogando você. Quando ouve os problemas de uma pessoa amiga, você volta para casa e fica pensando, desejando encontrar uma solução? O psicólogo ouve tantas coisas todos os dias, e precisa voltar para sua casa e sua vida. Mas ele é humano e por mais que ele tenha aprendido a guardar as coisas que ouve em um compartimento dentro da sua mente com a placa “consultório”, muitas vezes aquelas lembranças escapam e ele se vê pensando na história de um cliente ou outro, tentando entender para conseguir ajudar. Às vezes acorda no meio da noite com um insight a respeito de determinada pessoa.
Muitas vezes o drama de um cliente faz eco em suas próprias dificuldades. Às vezes ele carrega o mesmo trauma que o seu cliente. Às vezes a dor maior está dentro dele. Somos todos humanos. De diferente é que os psicólogos aprendem a lidar com a dor humana em outra dimensão; às vezes ainda está em processo de aprendizagem, ou de cura. Nenhum diploma nos faz imunes aos sofrimentos humanos. Todos compartilhamos a mesma humanidade.
Nós psicólogos passamos grande parte da nossa vida dentro de consultórios, o nosso onde somos os ajudadores, e nos de colegas, onde somos os ajudados. Fazemos terapia para cuidar de nossas dores e nosso não entendimento dessas dores. Fazemos terapia para cuidarmos de nosso bem estar, porque este é fundamental para os nossos clientes.
Fazemos terapia porque temos uma vida psíquica como todos os outros seres humanos. E porque precisamos nos conhecer para podermos conhecer o outro na nossa frente. Fazemos terapia porque precisamos nos libertar daquilo que em nós causa estranheza para acolher a estranheza de nosso cliente e devolvê-la para ele como solução e entendimento.
Fazemos terapia porque também carregamos mistérios, confusões, conflitos, mas temos de oferecer nosso melhor a cada um que nos procura. É no consultório de outro psicólogo que nos purificamos, elaboramos nossa faltas e perdas, nossos relacionamentos, e deixamos nosso cansaço, porque psicólogo também cansa.
E a dor dói igual em todos. Me lembro de uma época em que eu trabalhava em Corinto e uma psicóloga de outra cidade ia fazer uma palestra na Igreja. Ela não foi e o responsável pelo grupo de oração disse que ela havia perdido o filho no dia anterior e pediu às pessoas presentes que rezassem para que ela se sentisse confortada. Até aí tudo normal. Não importa quem seja você a perda dói, para uma mãe a perda de um filho dói, seja qual for o nível de conhecimento desta mãe.
No dia seguinte uma cliente chega ao meu consultório e diz algo parecido com “ela é psicóloga, como que ela está sofrendo?”. Falta de inteligência emocional da cliente que desacredita da humanidade de alguém apenas porque ela é psicóloga. Falta de inteligência emocional minha que simplesmente me levantei e a dispensei. Certo que eu estava no começo da carreira e também não soube lidar com a crítica que a pessoa fez a uma colega de profissão.
Esta história é só para ilustrar. Psicólogo também é gente, também sente, também sofre, também cansa. Pense nisso antes de dizer a um psicólogo que é “só uma conversa” ou “vai ser rapidinho, só quero sua opinião”. Com você, cliente, “compartilhamos da graça de viver” pois todos fazemos parte do reino humano, com as mesmas dores e alegrias, limites e potencialidades.
“Por esta razão, estamos em condição de igualdade, sujeitos a sermos felizes, a sofrer, a chorar e a sorrir, a ficarmos emocionados quando vislumbramos no horizonte do outro um novo paraíso. Percebemos o universo insubstituível do nosso companheiro de existência, nosso cliente, ele que é arquiteto do sentido da nossa vida” (José Carlos Vitor Gomes – A prática da psicoterapia existencial).