A Psicologia é a arte e ciência do conhecimento sobre o ser humano, este, o maior espetáculo para outro ser humano. Estudamos e trabalhamos com pessoas, seus comportamentos, seus sentimentos e emoções, suas cognições, seus processos básicos e seus processos superiores, suas faltas, suas dores e seus desejos, e sua subjetividade. A nossa singularidade, aquilo que cada um é, descontando a parte em que somos todos iguais, é a nossa subjetividade. Aí estão as nossas dores, resultados das histórias que vivemos. Aí estão as alegrias também, as preferências, as escolhas, o caminho único de cada um nesta terra, pelo tempo em que estiver aqui. E também as perdas, pois na vida ganhamos e perdemos, escolhemos e abrimos mão, cada aspecto negativo traz seu par positivo e vice-versa. E de acordo com as histórias que vivemos e as pessoas com quem nos relacionamos, vamos criando nosso jeito de ser, e um modo particular de encarar a vida, com mais ênfase no lado positivo ou negativo.
Algumas pessoas ficam presas a acontecimentos antigos mas negativos e passam a vida com pena de si mesmas, ao invés de construirem outra história. Resmungam, lamentam, sem perceber que se estão presas nesse destino é porque elas mesmas escolheram. Sempre há algo que podemos fazer para mudar as situações. Trazemos dentro de nós potencialidades e capacidade de genialidade que muitos não acreditam e, portanto, não usam a seu favor. Nada está pre-determinado. Nós é que fazemos ou não, determinamos ou não, definimos ou não. E quando achamos que não escolhemos, que não determinamos, esta atitude negativa de acomodação diante da vida é também uma escolha e como tal, trará seus resultados. Isto significa o que Sartre dizia: estamos todos condenados à liberdade.
Se usamos esta liberdade para viver a vida como a queremos ou não, é escolha de cada um. E como muito bem disse Jesus, o que plantamos é o que vamos colher.
Quem sou eu? É uma pergunta que sempre nos fazemos e na qual sempre pensamos quando alguém quer nos conhecer melhor ou pelo menos saber se somos o que elas precisam.
Cada um de nós vive aquilo que dá conta de viver. Nossa história conosco mesmos é a história de amor que conseguimos viver conosco mesmos. Não necessariamente é uma história tranquila, mas sempre nos preocupamos conosco mesmos. Queremos o nosso melhor. Acreditamos que somos merecedores do melhor, mesmo que nem sempre sejamos verdadeiramente amorosos conosco mesmos, porque nossa ideia de amor pode ter sido distorcida. Mas inegavelmente, fazemos o melhor que conseguimos. Acontece que nem sempre esse melhor é tão bom, e nem sempre esse melhor é tudo que conseguimos ser. Nem sempre a história que contamos é a história que sonhávamos contar.
De fato, podemos ser muito melhores conosco mesmos. Uma pessoa que faz tudo pelo parceiro amoroso não significa que não se ama. Significa que ela se ama intensamente e fazer tudo pelo outro é uma forma de manter a outra pessoa com ela, pois acredita que a outra pessoa faz muito bem a ela. Ou acredita que pelo menos ela tem alguém, o que se justifica pelo fato de que todas as pessoas do mundo querem um amor.
Quando uma pessoa se maltrata, usando drogas, bebendo, ou comendo além da medida não é por falta de amor próprio como se costuma dizer. É sim, por se amarem e acreditarem que aquilo traz algum alento ou conforto na dureza da vida cotidiana. O problema é que não acreditam que ficarão viciados, quer dizer, escravizados. Aquilo representa uma compensação diante das frustrações da vida.
Quando uma pessoa se trata com desrespeito, se automutilando ou se agredindo, não é por falta de amor. É porque há uma dor psicológica tão grande e insuportável, que quando se fere fisicamente a pessoa muda o foco para uma dor mais suportável e sob seu controle. Pode parecer inacreditável, mas há muitas pessoas com dores psíquicas tão profundas, que muitas vezes a dor no corpo é mais suportável, é um momento de alívio quando ela consegue desviar a atenção da insuportável dor de ser que carregam na alma, para uma dor que pode ser cuidada e curada.
É muito interessante como algumas (muitas) pessoas entendem o trabalho da Psicologia. Outro dia, minha amiga Lorena perguntou: “Tudo bem com você? Está acontecendo alguma coisa? Você parece tão cansada!”
Sim, eu estava extremamente cansada. Por quê? Porque todo mundo tem problemas e cada vez mais as pessoas parecem mais perdidas e carentes. Antes quando você encontrava uma pessoa e falava “oi, tudo bem?”, a pessoa respondia que estava tudo bem e seguia em frente. Era só um cumprimento.
Hoje as pessoas param e respondem, contam os problemas e esperam uma solução. Alguns cultivam a ilusão de que temos todas as respostas, e esperam que os livremos de suas dores e problemas em uma conversa. Já outros dizem que querem “apenas conversar um pouco”, “ouvir sua opinião”, como se realmente fosse apenas uma opinião, quando na verdade temos longos anos de estudo, principalmente após a faculdade.
Além dos estudos, da formação básica, da supervisão por longos anos com nossos mestres, das especializações e do aperfeiçoamento constante, ainda nos submetemos a vários processos terapêuticos durante nossa vida. Esta é uma condição necessária em nossa profissão. A primeira orientação que recebemos quando iniciamos a faculdade de Psicologia.
Psicólogos não são apenas “escutadores” de histórias e “opinadores” na vida alheia. Isto qualquer um faz. Nós, ao contrário, portamos os fundamentos de uma ciência, que embora exista desde que o início da civilização quando um humano tentou entender outro humano, só se constituiu enquanto ciência, corpo teórico e instrumentos de trabalho, há pouco mais de um século.
Psicólogos são (re)contadores de histórias; (re)escritores de histórias de vida; (re)programadores de estratégias para novas histórias; aceleradores de mudanças; co-criadores junto com os clientes de novos scripts e novos templates de vida. Psicólogos são co-autores de inúmeras histórias de vida, atuando através das palavras em todas as áreas e dimensões da vida humana. É pouco? Não, isto é muito.
E como dizia Lacan, pagamos com a própria vida. Outros profissionais têm instrumentos mediadores em seu trabalho. O instrumento do psicólogo é a própria pessoa que ele é, o que ele traz de vida vivida, suas experiências e seu absurdo conhecimento da subjetividade humana. Digo absurdo porque para além da teoria, e do conhecimento amplo, cada ser humano ali, na sua frente, traz o geral e universal de que tratam as teorias, mas trazem também a sua subjetividade. Cada ser humano é único em suas particularidades, e temos de ver e compreender cada um como um universo único, com sua história, suas crenças, sua forma de sentir, agir, reagir, pensar, viver, enfim, encontrar a verdade de cada um e refleti-la de volta para que cada ser se torne consciente do que realmente é.
Mais do que um ser explicado por uma teoria, ou várias, quando está na nossa frente, nosso cliente se torna único. E assim, com cada um é um processo inteiramente novo, único. Acolhemos e ouvimos cada um em sua condição particular e singular. Nos entregamos ao trabalho de ouvir o dito e também aquilo que não é dito, mas escapa do inconsciente. Pescamos nas palavras os significados da vida de cada um, inclusive os significados ocultos. Em cada pista mínima buscamos compreender o sentido de uma vida que muitas vezes passa despercebido, pelo próprio sujeito. Esse mesmo que muitas vezes sente que sua vida é desapercebida de sentido.
E qual o sentido da vida do psicólogo? É o sentido da doação de si, da doação da pessoa que se é. É o sentido do compartilhamento da sua vida pois é na vida de outros que ele investe a sua própria vida, na práxis cotidiana de desvendar mundos insconscientes e desvelar sentidos ocultos, que principalmente por serem ocultos causam mal estar.
Venha comigo! Quando as pessoas começam a falar de suas dores e sofrimentos isto afeta você, afeta seus sentimentos, certo? Imagine então alguém que passa o dia todo a ouvir os problemas dos outros? Enquanto ouve a história que está sendo contada, seus sentimentos estão presentes, pois se não houvesse a capacidade de sentir, como ele seria capaz de compreender a outra pessoa?
Enquanto ouve atentamente, ele precisa manter sua atenção flutuante para ouvir o inconsciente e captar os sentidos do não-dito, que exatamente por não ter sido dito, tornou-se mal-dito. O mal-dito causa dores e sofrimentos, daí a cura depender de que tudo seja dito e compreendido. Compreender outro ser humano é uma bênção e um júbilo, porque como disse Eça de Queiroz, “o maior espetáculo para o homem será sempre o próprio homem”.
Mas continuemos interrogando você. Quando ouve os problemas de uma pessoa amiga, você volta para casa e fica pensando, desejando encontrar uma solução? O psicólogo ouve tantas coisas todos os dias, e precisa voltar para sua casa e sua vida. Mas ele é humano e por mais que ele tenha aprendido a guardar as coisas que ouve em um compartimento dentro da sua mente com a placa “consultório”, muitas vezes aquelas lembranças escapam e ele se vê pensando na história de um cliente ou outro, tentando entender para conseguir ajudar. Às vezes acorda no meio da noite com um insight a respeito de determinada pessoa.
Muitas vezes o drama de um cliente faz eco em suas próprias dificuldades. Às vezes ele carrega o mesmo trauma que o seu cliente. Às vezes a dor maior está dentro dele. Somos todos humanos. Apenas os psicólogos aprenderam a lidar com a dor humana em outra dimensão; às vezes ainda está em processo de aprendizagem, ou de cura. Nenhum diploma nos faz imunes aos sofrimentos humanos. Todos compartilhamos a mesma humanidade.
Nós psicólogos passamos grande parte da nossa vida dentro de consultórios, o nosso onde somos os ajudadores, e nos de colegas, onde somos os ajudados. Fazemos terapia para cuidar de nossas dores e nosso não entendimento dessas dores. Fazemos terapia para cuidarmos de nosso bem estar, porque este é fundamental para os nossos clientes.
Fazemos terapia porque temos uma vida psíquica como todos os outros seres humanos. E porque precisamos nos conhecer para podermos conhecer o outro na nossa frente. Fazemos terapia porque precisamos nos libertar daquilo que em nós causa estranheza para acolher a estranheza de nosso cliente e devolvê-la para ele como solução e entendimento.
Fazemos terapia porque também carregamos mistérios, confusões, conflitos, mas temos de oferecer nosso melhor a cada um que nos procura. É no consultório de outro psicólogo que nos purificamos, elaboramos nossa faltas e perdas, nossos relacionamentos, e deixamos nosso cansaço, porque psicólogo também cansa.
E a dor dói igual em todos. Me lembro de uma época em que eu trabalhava em Corinto e uma psicóloga de outra cidade ia fazer uma palestra na Igreja. Ela não foi e o responsável pelo grupo de oração disse que ela havia perdido o filho no dia anterior e pediu às pessoas presentes que rezassem para que ela se sentisse confortada. Até aí tudo normal. Não importa quem seja você a perda dói, para uma mãe a perda de um filho dói, seja qual for o nível de conhecimento desta mãe.
No dia seguinte uma cliente chega ao meu consultório e diz algo parecido com “ela é psicóloga, como que ela está sofrendo?”. Falta de inteligência emocional da cliente que desacredita da humanidade de alguém apenas porque ela é psicóloga. Falta de inteligência emocional minha que simplesmente me levantei e a dispensei. Certo que eu estava no começo da carreira e também não soube lidar com a crítica que a pessoa fez a uma colega de profissão.
Esta história é só para ilustrar. Psicólogo também é gente, também sente, também sofre, também cansa. Pense nisso antes de dizer a um psicólogo que é “só uma conversa” ou “vai ser rapidinho, só quero sua opinião”. Com você, cliente, “compartilhamos da graça de viver” pois todos fazemos parte do reino humano, com as mesmas dores e alegrias, limites e potencialidades.
“Por esta razão, estamos em condição de igualdade, sujeitos a sermos felizes, a sofrer, a chorar e a sorrir, a ficarmos emocionados quando vislumbramos no horizonte do outro um novo paraíso. Percebemos o universo insubstituível do nosso companheiro de existência, nosso cliente, ele que é arquiteto do sentido da nossa vida” (José Carlos Vitor Gomes – A prática da psicoterapia existencial).